14 de agosto de 2017

Sofro porque não sou burra - Romance Moderno,1971



A minha verdade – uma entrevista corajosa com Maysa

ROMANCE MODERNO – A novela representa uma outra fase em sua vida?
MAYSA – Possivelmente se abre um campo novo para mim. Espero que seja uma experiência bastante válida para o futuro. Me interessa muito fazê-la.

Quantas vezes você se sentiu obrigada a recomeçar a sua vida?
Eu não creio que tenha recomeçado nada, principalmente no lado profissional. Eu apenas tenho acompanhado as circunstâncias.

Você se projetou como cantora milionária. Hoje você canta para viver ou vive para cantar?
Fazem sempre esta pergunta para mim. A ideia de cantora milionária foi o público quem deu. Acredito que eu seja milionária no sentido de ter boa voz, ter bons amigos. Hoje em dia faço o que gosto: vivo canto, sou atriz, sou jornalista. Estes são os meus ideais, me fazem falta até para respirar. Uma coisa em função da outra.

Você demonstrou em suas composições ser uma mulher que sofre. Sofrimento para você representa uma razão de viver?
As pessoas que hoje em dia não sofrem são muito burras ou muito insensíveis. O sofrimento a gente tem de manhã, de tarde, de noite. A vida está mais cheia de sofrimentos do que de outras coisas. A gente procura, de certa forma, dar mais valor às coisas boas do que ficar pensando em coisas tristes.

Qual a diferença entre a felicidade e o sofrimento?
É justamente a diferença entre uma coisa e a outra.

Você acredita no amor?
Eu acho que é a única coisa que existe de bom no mundo.

Você como cantora se acredita atual ou fora de moda?
Como cantora, sigo a minha linha. E me sinto sempre atualizada. A música é uma só desde que ela começou. Eu faço o que gosto.

Você, que só canta um tipo de música, como vê toda esta renovação?
Eu acho que há muita confusão. Existem grandes valores, como por exemplo, Taiguara. Alguém pode chamar este menino de superado? Inclusive, ele tem a mesma linha que eu. É moderninho, é um garoto desta geração. O próprio Ivan Lins, que é considerado o mais quente do momento, se repararmos nas suas composições, tem um profundo sentido de fossa, de amor. No fundo, é sempre a mesma coisa. O amor a gente sempre sente igual.

Você já esteve na fossa?
Estive, e muitas vezes! Para sair dela há duas formas de encará-la. Ou curti-la muito bem, sofrer por ela, ou partir para um negócio melhor, fugir de gente que não se gosta, da burrice, se ligar com gente que nos faça bem.

Você seria capaz de morrer por alguém?
Totalmente!

Então, a morte compensa como sacrifício de amor?
O amor compensa qualquer coisa.

Como você define a angústia?
Para mim, a coisa mais importante é você tentar dar do que receber. Quando você deseja dar, dizer tudo o que tem dentro de si e não é compreendida, aí , sim, é a pior coisa, a maior angústia.

Entre a angústia e o desespero, onde você vê a solução?
É começar tudo novamente.

Você já sentiu em sua vida um momento de profunda ternura?
Sempre tenho motivos de ternura em minha vida. Sobretudo quando vejo uma possibilidade de diálogo com gente que me entende. Outro dia tive um momento de grande ternura em minha casa, quando estive batendo um papo com uma mulher que considero uma das coisas mais excepcionais que já encontrei em minha vida, Marília Pêra. O de que esta mulher é capaz, com os olhos, com palavras, ou mesmo expressões, é um negócio fantástico. Marília é uma mulher inteligente, sabe o que quer, é sensacional.

Crê em alguma coisa acima de você?
É muito importante eu me considerar importante, pois, acima de mim, existe um amor mais que o meu. E será que existe um amor maior que o meu?

Você andou uma época um pouco afastada, meio sumida. Qual foi a causa real?
Aconteceu que fui para a Espanha. Meu marido é espanhol e tive que acompanha-lo. Lá, continuei inclusive cantando, embora com menos frequência que aqui. Depois estava cansada de algumas fofocas e dei uma paradinha.

Você se considera o tipo de mulher em transição pela liberdade?
Desde que me entendo por gente, luto pela liberdade.

Qual o momento artístico mais importante de sua carreira?
Eu acho que ainda está para vir. Eu quero sempre mais do que já tenho.

O que você acha mais importante na vida?
É o amor. Para carreira, para tudo na vida.

Você agora está dando uma de atriz. Como está se sentindo?
Acho que atriz eu fui a vida inteira. Quem vive é ator; acho que participar da vida como eu, é uma forma de ser atriz. Às vezes, você tem de fazer coisas de que não gosta, atuar com pessoas que você detesta. A vida, toda ela, é um teatro.

O personagem que Bráulio Pedroso criou para você é mais ou menos um retrato de sua vida, mulher desquitada de industrial paulista. Como é a história?
Não tem nada que ver com a minha personalidade e, além do mais, eu não sou desquitada de um industrial paulista. Sou casada com um industrial espanhol e vivo muito feliz.

Você não tem receio de que esta nova carreira venha atrapalhar sua vida de cantora?
Não. Ao contrário, suponho que vai somar mais uma coisa à minha vida.

Se você tivesse que decidir entre ser cantora e atriz, optaria por qual?
Acho que este negócio de opção é muito tolo. Se tivesse que fazer as duas coisas ao mesmo tempo, sim. Eu não vejo porque tenha que deixar uma coisa pela outra.



(Entrevista publicada originalmente na revista Romance Moderno, nº 38, em 1971.)



18 de abril de 2017

Maysa, outra vez rica e caprichosa - Intervalo 2000, 31/07/1972



Pela segunda vez, Maysa interpreta mulher rica e caprichosa na televisão

São Paulo, Maysa (35 anos) atualmente está interpretando o papel de Márica, uma mulher rica e caprichosa, na novela "Bel-Ami", da Rede Tupi de Televisão, esta é sua segunda experiência como atriz de TV. Antes, fez Simone em "O Cafona" e, como desta vez, era rica. No tempo em que as músicas de "fossa" faziam grande sucesso, Maysa apareceu como cantora e compositora. "Ouça" foi uma de suas composições famosas. Depois, mudou-se para a Espanha, afastando-se um pouco da vida artística .
Depois de "O Cafona", Maysa foi para o teatro, onde interpretou a peça "Woyzeck" de Büchner. Embora fosse uma estreante, a crítica foi implacável quanto a seu desempenho como a camponesa Maria.
Enquanto faz novela, Maysa se apresenta no Bierklause do Rio, cantando, e prepara um show para os paulistas: "Tem que ser um grande show para marcar minha volta a São Paulo, depois de tanto tempo longe dos paulistas".





(Reportagem publicada originalmente na revista Intervalo 2000 de 31 de julho de 1972. Agradecimentos ao blog Astros em Revista)


21 de março de 2017

Fossa x Alegria = Maysa - Diário de Notícias, 17/06/1970



Texto de Vera de Almeida
Fotos de Maria José Barbosa

A Maysa, que diz que a fossa faz parte de sua vida, como faz da minha e das pessoas que se prezam, quando em família e,  principalmente, perto de sua avó, não parece senti-la, vira outra pessoa, onde o sorriso, a despreocupação está presente. É da Maysa fossenta e da Maysa alegre que hoje queremos falar um pouco. É do “Chão de Estrelas” que ela canta como ninguém. É da mulher e da cantora, ambas muito gente, que respeitam a quem as respeita, mas que se defendem como um leão ferido sempre que procuram atingi-las, jamais partindo para o ataque, sempre na defensiva. É da Maysa que só faz o que gosta, só diz o que pensa e aquilo que crê, que nos ocuparemos, mostrando que a sua agressão sempre tem razão de ser, não é gratuita.
Era um sábado cheio de sol. Em Copacabana, uma família reunia-se para feliz comemorar um aniversário. Era a família Monjardim que nesse dia cantava a tradicional musiquinha e acendia as velas de um bolo, quem as apagou foi uma pessoa famosa, conhecida em todo território nacional e fora dele. Mas naquele momento, Maysa esqueceu-se que era a cantora da fossa, da dor de cotovelo, para ser somente a neta, filha, a irmã, a cunhada, a esposa e a amiga. E como cantora da fossa é grande, não tem rival, também nas relações com sua família e com seus amigos, deixava transparecer toda a sua grandiosidade. Nesse dia não quis falar do show que está fazendo no Canecão, onde todas as noites é aplaudida de pé, especialmente ao fim de “Chão de Estrelas”, nem no programa “Dia D”, que deverá lhe dar este ano o prêmio de melhor entrevistadora da televisão, pois com muita inteligência vai conseguindo arrancar tudo de seus entrevistados, só desejava falar de saudade que sente de Jaiminho, que em julho deverá chegar para passar as férias, de sua sobrinha que leva o seu nome, de sua avó, a quem serviu o tempo todo, não permitindo que ninguém cuidasse dela, de seus pais, de seu marido e de seu irmão com quem relembrava momentos felizes e despreocupados de sua meninice e de sua adolescência. Nesse dia Maysa esqueceu a fama, as luzes, os aplausos, para ser só e simplesmente a dona de casa que estava recebendo e que fazia questão não só de receber como manda o figurino, mas acima de tudo, com muita ternura, carinho e amor, aqueles que lhe querem bem e aceitam como a mesma é sem exigir-lhe nada e de quem ela nada exige também.
Mas não é somente com seus familiares que vamos descobrir a Maysa ternura, a Maysa carinho, a Maysa amor, é, também, em seu ambiente de trabalho. É no Canecão, onde as garçonetes não lhe poupam demonstrações de apreço e carinho. É Luizinho Eça, diretor musical do show e responsável pelos arranjos, que diz:
- Eu quero levar Maysa ao encontro de um ambiente formado por garotos novos que tem coisas românticas e líricas que se prestam demais ao seu estilo de interpretação, para que ela renove o seu repertório. Quero propiciar esse encontro, porque acho que em matéria de lirismo, no Brasil, não existe nenhuma intérprete como Maysa. Disso não tenho dúvidas. Somente ela me faz abrir o berreiro, chorar como criança.
Maysa ouve isso tudo com um sorriso feliz em seus olhos, nos lábios, enfim, no rosto e, não se contendo, o interrompe para dizer que tudo isso acontece porque, embora já tenha trabalhado com muitos músicos, maestros, Luizinho Eça é o único que ela já viu durante um ensaio, ao piano, se arrepiar todo. E isso é sensacional. A gente vê a pele dele se arrepiar inteirinha e os pelos dos braços crescerem. Luizinho acredita tanto naquilo que está fazendo que nos transmite essa confiança, que nos dá confiança também. Desse modo Maysa reage aos amigos, àqueles que a respeitam como gente e como profissional. Em compensação, porém, é implacável quando encontra um mau caráter, aquele que se quer promover à sua custa ou a custa de qualquer outra pessoa, mesmo que essa não seja um amigo. Por isso, recentemente ao ser agredida, no que, como profissional, tinha de mais importante – sua criação musical – reagiu, e de maneira violenta. E desta vez, como de outras, os menos avisados não perceberam e alguns fingiram não perceber o porquê de seu ataque, que não era um ataque, mas uma defesa.
Assim, é Maysa: meiga, terna, carinhosa, mas que também sabe usar palavras e atitudes duras quando a provocam. E que não faz concessões baratas, como profissional, pois seu respeito ao público a leva aos maiores sacrifícios, porque, segundo ela mesma, não se pode brincar com aqueles que, apesar de tudo, das campanhas, do que disseram e fizeram com ela, lhe permaneceram fiéis e souberam responder ao seu apelo em “Ouça”: ouvindo-a ontem e hoje. 


(Reportagem publicada originalmente no jornal Diário de Notícias em 17 de junho de 1970)

8 de fevereiro de 2017

Maysa, o medo e a falta de sol - Diário de Notícias, 1963




Texto de Fernando Lobo

A vida é um quarto escuro mesmo e Maysa é uma criança ainda. As águas do tempo passam, mas ela será sempre criança, pois sendo só e sendo o bem das horas, minutos e segundos, não ganhará jamais o ritmo de ser só, de ficar só. Então se sabendo grande, esconde o medo empurrando a coragem do álcool, a presença do amor que não é amor, mas é presença, é segurança, é fala, é voz; não é amor, mas é alguém ao seu lado.
Que procura essa estranha mulher? Que quer ela? Para onde quer ir e onde está?
O silêncio de resposta é grande. Ontem ela ria, porque em volta havia um bando de meninos da “bossa nova” que cantaram sambas, que imploraram gravações para seus sambas “geniais”. Depois o bando voou, ao encontro das bem-amadas. Maysa ficou só, com acordes de colcheias e semitons nos seus ouvidos. O bando não a levou. Cumpriu missão de colocar música e depois se foi. A estrela ficou só, com seu Deus e sua estrela.
Agora ela diz que há um verdadeiro amor em sua vida e que ficou lá na Espanha. Não! Não é este ainda. O seu homem está num continente que pode ser a um mundo de milhas de distância ou a um palmo da sua mão. Ele não veste a farda nova dos novos de agora, nem tem nas mãos a arma moderna de um violão em dissonância. Deve ser homem, alegre, musical, bom, mas de passadas firmes, olhar firme e amor seguro por você. Mãos longas que segurarão suas mãos de menina. Passos firmes a mostrar como se caminha na estrada longa você que engatinha ainda. Ele será o homem procurado e que não está dentro da cortina de fumaça da noite, nem debruçado no balcão meloso do bar, muito menos com o rosto maquilado a pedido da noite. Será um homem de sol, de dentro para fora, homem dos peixes, amigo do mar, cheirando a sargaço, a seiva, a vida e transbordando amor para quem está oca, assim como você. E ele será inteiro seu. Então você saberá do sol, junto ao sol, provando e bebendo sol, que é o que falta às suas entranhas como remédio único para afastar o medo e a coragem de só não ter medo se afogando em lua...
Que estranha mulher é esta, que procura no vazio um alento, que encontra o alento procurado e o atira para o ar em troca de lágrimas e sofrimentos? Que estranha mulher é esta, que não se escondeu nos quatro cantos de um lugar comum, para que pudesse ter nos lábios sempre pragas. Que estranha mulher é esta, que tem em sua volta o ouro da fama, do metal, da glória, do êxito, ao ritmo das palmas e das flores? Estranha mulher, Maysa estranha que, quer um mundo maior que seu mundo, um Deus maior que seu Deus, uma estrela mais clara que a mais clara estrela que é sua. Ela vê as horas, escuta as águas do tempo correndo, correndo, seguindo sem passar e teme que seus cabelos sigam com elas e voltem brancos de neve. Maysa medrosa, Maysa covarde, Maysa fingindo ganância, com a soberba enfiada no peito como um punhal a não deixar que saia dos seus lábios a confissão mais certa, aquela que começa dizendo “eu quero mamãe, eu tenho medo...”


(Matéria publicada originalmente no jornal carioca Diário de Notícias em 1963)


22 de janeiro de 2017

Especial: 40 anos sem Maysa




O tempo parece voar cada vez mais rápido, hoje são quarenta anos sem Maysa... Quanto tempo se passou. Dizem que o tempo é o remédio para cicatrizes profundas, como a morte, mas mesmo que o tempo seja capaz de estancar uma ferida na pele, a memória conserva uma cicatriz interior; estas são mais profundas. Como a ausência de Maysa. 




[...] "Ao ler que não foi só cantora, compositora e atriz, mas também pintora, escultora e poeta, e sem entrar na avaliação de seu mérito em cada uma dessas formas de expressão, não tenho impressão de insegurança, superficialidade ou vaidade em busca de sucesso. Imagino antes que em cada tentativa de Maysa para se afirmar num setor de criação, havia a procura lancinante de forma de doação ao mundo – a forma definitiva. E essa doação seria de amor, no sentido mais perfeito da palavra, que é antes estético do que sentimental, ou seja, o ajuste completo das potencialidades do ser às potencialidades do mundo, em harmoniosa composição.
Por tudo isso, teria de sacrificar-se. Uma bela mulher talentosa que não se satisfaz com sua beleza nem com seu talento e procura alguma coisa mais do que isto, sem encontra-la, não por serem limitados os seus dons, mas porque a vida se encarrega de gerar situações críticas. Sobrevém o choque, o desejo subterrâneo de auto-imolação, que vai cortando as possibilidades da artista. O amor-criação não encontra correspondência adequada no grupo social, que deseja apenas aplaudir a cantora da dor-de-cotovelo e da solidão, sem perceber que atrás dessa música dolente há um enorme coração ligado a uma irrecusável ansiedade artística. E esse coração destrói-se aos poucos.

Seu fim, mesmo inesperado, é compreensível. Uma vida cheia de tensões, de insubmissão às regrinhas miúdas do jogo, teve o desfecho dramático que coroa sua tragicidade espiritual" [...]

Carlos Drummond de Andrade - Maysa na pintura e na lembrança, Folha de S. Paulo, 22/06/1978



[...] "Quando alguém me pergunta o que é amor eu sinceramente não sei o que responder. Está certo: amor é uma palavra muito bonita, mas não define coisa alguma. Hoje em dia, acho que o meu maior ato de amor é cantar. A pena é que cantar, para mim, ainda não se transformou – apesar de tudo – numa forma de expressão, no sentido realmente completo do termo. Pelo contrário, é apenas uma maneira de ganhar dinheiro. Mas acredito que chegará o dia em que conseguirei cantar como se fosse a coisa mais natural do mundo, assim como comer ou escovar os dentes; um ato absolutamente natural. Então, cantar vai deixar de ser apenas profissão. Porque quando me perguntam qual é a minha profissão, faço questão de dizer que minha profissão é ser."





Maysa
6 de junho de 1936 - ad infinitum


18 de novembro de 2016

Televisão: Maysa em Maricá (1974)


Maysa em Maricá




Em 1987, a TVE Brasil exibiu um especial em homenagem à Maysa com imagens editadas do precioso programa dirigido por Liana da Rocha para a emissora em 1974 e gravado nas localidades de Maricá, onde Maysa morava naquela época. No programa aparece a casa de praia da cantora, enquanto ela dublava seus antigos sucessos, relembrava sua trajetória artística e respondia perguntas de Antônio Carlos Jobim, o diretor de televisão Carlos Alberto Loffler, o pianista Ribamar,  o cronista Mister Eco, Roberto Menescal, Luiz Eça e Aloísio de Oliveira. Este documentário é raríssimo porque jamais foi reexibido novamente na íntegra.


parte 1

parte 2

parte 3

parte 4

parte 5

parte 6



18 de maio de 2015

Imprensa: O que? Qualquer coisa. - Revista Veja, 09/09/1970


O que? Qualquer coisa.


Sobre a envelhecida – mas não esquecida – figura da mulher infeliz, a cantora Maysa vem desenhando nos últimos três meses o perfil ainda indefinido da pessoa famosa que se decide a correr o risco de mudar de atividade e sofrer críticas como qualquer principiante. Entrevistadora, apresentadora e repórter do DIA D (Record de São Paulo), ela tem mostrado inteligência, presença de espírito e, ao contrário da maioria dos apresentadores de TV, cultura. Mas não tem evitado os erros que todo principiante comete. O mais recente deles foi uma confusa entrevista nos EUA com o advogado do fanático Charles Manson, acusado de em agosto do ano passado ter comandado o assassinato da atriz Sharon Tate. Esse erro, seus novos planos e seu passado foram alguns assuntos de que falou na entrevista com Armando Salem, editor de “Televisão” de VEJA:

VEJA – Diga alguma coisa.
MAYSA – Ahn? Bemm... Eu posso dizer o que você quiser. Mas você não tem uma pergunta específica?
VEJA – Qualquer coisa.
MAYSA – Bom, tá perfeito, mas eu preferia que você dissesse sobre o que. Você é jornalista há muito tempo? Digo, faz tempo que você é repórter de VEJA? Você é repórter de VEJA?
VEJA – Sim, sou repórter de VEJA, faz tempo que sou jornalista e entendo sua preocupação. Não sou um foca*. Agora, não entendo seu espanto com minha pergunta. Afinal de contas, foi uma pergunta exatamente do gênero da que você fez ao advogado de Charles Manson no Hall of Justice, de Los Angeles. E com a mesma insistência.
MAYSA – (silêncio perplexo)
VEJA – Você deve assistir aos vídeos tape de seus programas e se tiver o mínimo de senso crítico...
MAYSA – Sim, vi o tape no Rio de Janeiro logo que cheguei de viagem e tive vontade de morrer. Se pudesse desligar o botão da minha televisão e tirar o programa do ar, teria tirado. Infelizmente, a gente não viaja por conta própria, mas com o dinheiro dos outros. E o programa que dá IBOPE, não importa se bom ou ruim, eles levam ao ar. A TV brasileira não existe para ser muito inteligente.
VEJA – Nesse caso a coisa muda de figura, não conhecia você pessoalmente e pela TV você parecia ser uma mulher orgulhosa e pretensiosa que...
MAYSA – Eu, orgulhosa? Porque?
VEJA – Talvez pelo seu porte, pelo ar teatral da pose sempre estudada...
MAYSA – Mas eu não sou estudada. Sou autêntica. Procuro sempre agir com naturalidade, a não ser...
VEJA – Não vem ao caso. Isso fica para mais tarde. O negócio é discutir sua entrevista com o advogado de Manson. Você conseguiu com exclusividade a cobertura do julgamento. Teve o advogado à sua disposição, o auxiliar do xerife, uma amiga de Manson e não fez nada. Deixou todo mundo sem saber nem mesmo se Manson estava na sala do tribunal. E, o que é pior, depois de um raio de luz, da insistência do advogado em que você fizesse uma pergunta específica, perguntou se ele achava Manson culpado.
MAYSA – Não sei o que aconteceu. Sabe quando você sonha que está fazendo algum troço, e quando está ali, com tudo à sua disposição, vem alguma coisa e lhe tolhe todos os movimentos? Minha voz não saía. Eu não conseguia coordenar nenhum pensamento. Sei lá, estava abobada. Se eu tivesse me preparado, teria feito uma coisa melhor, mas fui avisada às 10 horas da noite, pelo auxiliar do xerife, de que poderia ir ao Hall of Justice, inclusive com a câmera de filmagem.
VEJA – Sabe o que é uma pauta?
MAYSA – Sei, é aquele resumo da história que a gente faz...
VEJA – Não. Esse resumo também é importante e você não fez...
MAYSA – Não vai querer que eu lhe mostre que conheço o caso Manson?
VEJA – Claro que não. Mas no programa você devia ter lembrado o caso. No entanto, partiu do pressuposto de que todos os seus telespectadores eram gente que acompanha as notícias através de jornais ou revistas...
MAYSA – Meu público é o público de “Ouça”, ou seja, de todas as classes.
VEJA – Mas voltemos à pauta. Pauta é exatamente este roteiro que eu trouxe para me orientar e não esquecer certos temas da entrevista que estamos tentando fazer. Coisa que pouquíssima gente parece conhecer em nossas televisões.
MAYSA – Concordo plenamente, tudo é improviso. Mesmo nas entrevistas cara a cara que eu faço no “Dia D”, muitas vezes, fico sabendo cinco minutos antes de entrar em cena, ou do encontro com o entrevistado, de quem e do que se trata. Não é que eu queira me desculpar, mas o resultado só pode ser o apresentado – às vezes; bom, outras, ruim. Mas acho importante o que está dizendo...
VEJA – O que?
MAYSA – Todas essas críticas. Ainda no domingo passado, a respeito do programa do Charles Manson, li em um jornal de São Paulo que o programa havia sido excelente, com mínimas falhas. Agora veja quanto foi ridículo. Para mim isso é que é o importante, sei que não sou uma repórter...
VEJA – Era minha próxima pergunta. Olhe aqui na pauta.
MAYSA – (Sorri.) Eh, facilita. Mas, dizia, não sou repórter. Vejo no jornalismo algo de fascinante e pretendo me dedicar a ele. Manson era a minha primeira grande experiência, falhei, não pretendo me desculpar. Mas não gosto das coisas pela metade, como fazia antigamente. Ninguém nasceu sabendo, vou aprender a ser jornalista, aproveitar o meu “background” – intuição. Tudo em mim é intuição.
VEJA – Desculpe. Mas você parece ser uma mulher culta. Não apenas impressiona por falar fácil, mas suas histórias demonstram uma mulher vivida.
MAYSA – Minhas histórias. Histórias do tempo em que eu bebia demais para ter um pouco de coragem...
VEJA – É tímida?
MAYSA – Ultra tímida. Naquele tempo eu cultivava minha infelicidade. Os jornais falavam que eu era uma bêbada, infeliz, e eu delirava com isso. Ficava feliz porque alguém me incentivava a ser infeliz. Na verdade, eu não era nada, não via nada. Terminei o ginásio e aos dezoito anos de idade estava casada. Jamais gostei muito de ler (li muito pouco). Morei na Espanha, vivi uns meses completamente dura em Paris (mas dura mesmo, não tinha dinheiro nem para comer), morei em alguns países da América Latina e, francamente, não tirei nada além do dia a dia. Claro, aprendi a falar inglês, francês, espanhol e italiano.
VEJA – Bom, vivida ou não, o certo é que você carrega uma boa bagagem. E o simples fato de falar várias línguas já dá para você se comparar com os demais entrevistadores de nossas TVs.
MAYSA – Pra começar, eu quase não vejo televisão e conheço muito pouca gente para me comparar...
VEJA – Você não gosta de televisão?
MAYSA – Para responder isso, tenho que cair no velho chavão: “É masoquismo ver televisão no Brasil”. Mas a verdade é que eu não aguento TV. Ela atrapalha o diálogo e eu adoro conversar. Prefiro bater um papo sozinha, feito uma louca, ou ir cozinhar, a assistir televisão. Além disso, pouquíssimos são os bons programas.
VEJA – O “Dia D” é um bom programa?
MAYSA – Vai ser um bom programa. Já tem muita coisa boa, mas é muito longo e tem uma série de enxertos (musicais, na maioria) que se repetem para encher suas três horas e meia de duração. Agora ele vai passar para uma hora e vinte e será mais de jornalismo do que musical. E existe uma preocupação tanto de minha parte como do Paulinho Machado de Carvalho (diretor da Record) em não assinarmos contrato. Assim, no dia em que um dos dois não estiver satisfeito faço as malas e me mando. Por enquanto estamos de acordo. E animados. Ele com o meu trabalho, eu com as perspectivas de poder fazer um bom jornalismo. Entrevistas humanas, que outros fariam mundo-cão. O velho professor de violino da porta do Municipal do Rio, que, enquanto a orquestra toca no interior do teatro, toca na porta, na rua, feliz, exibindo um cartaz de sua profissão, em busca de alunos. Quero chegar à essência desse ser, dessa vida.
VEJA – Mas você me parece tão epidérmica!
MAYSA – Sim, sou epidérmica. Para mim, tudo é pele. Emoção, o que me cerca. E o que sempre procuro traduzir nos meus programas é isso, o que estou sentindo. Por isso não aceito a imagem de teatral que você me fez na TV. Eu sou aquilo. Por isso tenho fé no filme que só eu e o cinegrafista que me acompanha em minhas entrevistas (Laerte Garcia Rosa) iremos fazer. Sem roteiro. Ele filmará um longa metragem onde eu procurarei viver todas as emoções do momento e tentar transmiti-las. E para tentar transmitir isso vou até o impossível. Não tenho medo de bebidas, tóxicos. Só do LSD. Mas, se for...

* foca é o apelido que se dá nas redações ao jornalista principiante.









  

(Entrevista publicada originalmente na revista VEJA, em 9 de setembro de 1970)